Melancolia

“O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em
que nos situamos para olhar para a frente ou para trás” (CALVINO, 1993, p. 14).

“Em tempos de crise, a melancolia se impõe, é expressa,
faz sua arqueologia, produz suas representações e seu saber” (KRISTEVA,1989, p. 15).

A melancolia seria perda na vida pulsional, isto é, um eterno luto pela perda da libido. Um luto pelo desejo de recuperar algo que foi perdido. Freud analisa a anorexia nervosa pensando que essas moças se alimentam do vazio, levam o desejo ao zero, assim a anorexia é uma melancolia em que a sexualidade não se desenvolveu. A perda do apetite e da vontade em comer, seria paralela a perda da libido. 
O sujeito permanece petrificado em sua dor, falta então apetite para viver, tudo tão enfraquecido, uma identificação com a morte, que ser traduzida como a hemorragia de libido. Existir é uma dor constante, falta vitalização, talvez de uma mãe que anteriormente não deu vida ao seu bebê. O bebê não nasce triste, mas aprende a ser quando não encontra ressonância no ambiente.  Pode-se pensar em manifestações como a anorexia, a insônia, a indiferença, a abulia, como sendo manifestações de uma inibição vital completa. 
Tudo entra em pane, um eterno sentimento de perda é a cor cinza de sua vida. Apesar de tamanha dor, há certo conformismo com que não pode ter nem busca ter. Todos têm, ele não, sempre se sente em falta, desvalorizado, menos visto, ou amado. Muita culpa, delírios, se sente eternamente perseguido. 

"Por fim, devemos notar que o melancólico não se comporta inteiramente como alguém que faz contrição de remorso e autorrecriminação em
condições normais. Falta a ele, ou pelo menos não aparece nele de um
modo notável, a vergonha perante os outros, que seria sobretudo característica dessas condições. No melancólico, quase se poderia destacar o
traço oposto, o de uma premente tendência a se comunicar, que encontra satisfação no autodesnudamento. "(FREUD, 2011, p. 55)

Muito ligada a preencher os ideais de um cuidador, um outro, de profunda dependência. Mas e quando esse alguém morre? Se perde a si mesmo e se pode vir a ter uma identificação com a morte. O eu é seu próprio torturador, mas isso só é possível porque não se dirigem contra ele, de fato, mas sim contra um outro/objeto que não se sabe estar presente nele. 
O trauma da perda do objeto deixa sua marca em forma de ferida aberta a esvair sangue sem parar, clamando por cuidados, olhares... o corpo evidencia isso. 
Vive uma busca desesperada, numa atitude defensiva de preservação, por manter o objeto perdido presente, mesmo que, para isso, se identifique com a morte, o que pode ser fatal.

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