Por que sinto o que sinto? Sobre a dor de ser o que é


Será angústia? Ansiedade? Pânico? O que eu sinto?
O ser humano, desde o nascimento, tem que lidar com a dor, algo sentido no psicossoma, corpo e mente. Dor do desprazer, física, perda, renuncia... Mas como é complicado nomear o subjetivo.
A dor faz parte da espécie humana, está ligada à cultura, religião, arte, dentre outras formas de simbolização. Comum alguém assistir a um filme dramático e chorar ou ver uma pintura e se imaginar ali, as pessoas se identificam com o sentimento transmitido, ao mesmo tempo em que quem realiza a arte dá um contorno aos seus sentimentos.
A hanseníase é uma doença em que a dor não é sentida, os nervos são lesados, o que acaba sendo bastante perigoso, já que sentir dor nos protege, afinal se dói, a tendência é fugir, gritar, fugir... Não sentir a dor é estar desprotegido, vulnerável e em perigo.
Para a medicina, dor é algo subjetivo, uma vez que é difícil visualizar e dor  e mensurar o quanto sente o paciente, no caso da psicanálise o analista tenta adentrar esse universo de um paciente que procura a psicoterapia e tenta ali expressar como se sente sobre ser ele mesmo.  Não há exame de imagem ou de laboratório em que essas queixas trazidas possam ser constatadas, o que o paciente comunica e diz sentir é muito valioso. Crianças fazem caras e bocas, choram e gritam, esperando que a mãe devota saiba o que se passa com elas e resolva a sua dor. Será cólica? Fome? Frio? O bebê espera que sua mãe saiba e cuide dele, entenda o que cada expressão significa e decodifique suas mensagens. São tentativas de transmissão, enigmáticas, para a equipe médica, para o analista ou para o próprio paciente, o qual talvez seja filho de uma mãe que não pode captar suas mensagens e decifrá-las, então sua dor seguiu sem cuidado, foi tratada de modo ineficaz ou ele simplesmente desistiu de comunicar.
 A dor funciona como uma limitação, por isso atletas abandonam a profissão, doenças são dignas de atestados, entre outras questões rotineiras que nos fazem pensar que dor pede reclusão, descanso, parada, cuidar melhor de si e pensar que o corpo está sensibilizado, pedindo socorro. Como cada um lida com a dor? Quando a questão é física parece mais palpável, mas o ser humano é corpo e mente, há então que se pensar também sobre a dor mental e psíquica . Muitas vezes essas se sobrepõem, sendo a questão do psicossoma um estudo que relaciona a dor mental e seus ecos sobre o corpo, ou vice-versa. Comum quando se ingere medicamentos para mascarar a dor, contudo logo o efeito passa e ela retorna com força total, não é? Talvez porque a raiz da dor não foi tratada e isso que a psicanálise tenta trabalhar com o paciente, o porquê dói.
A capacidade de simbolizar, colocar em palavras, transformar a angustia em arte, ou lidar de algum modo com tamanhos desconfortos certamente é um modo eficiente para lidar com a dor de ser o que é. Corpo e mente são um só, um eu total, ainda não se produziram medicações tão reconfortantes como o olhar devoto de uma mãe que entende o porquê o seu bebe chora ou como ele se sente. O corpo é o único modo do bebe, sem ainda possibilidade em falar, comunicar o que sente, por isso muitas patologias físicas podem ser pensadas como uma incapacidade de inscrever na linguagem o que está desconfortável e doendo neste ser.
Há corpos que tudo dói, outros que o tempo todo parecem se mostrar fortes, outros que nem sentem mais. Importante entender o que é dor ou sofrimento, já que ambos conceitos falam sobre afetos. Entender a historia de vida daquele paciente, fugir ao modelo médico de que tudo pode ser medicado, ouvir e acolher como forma de redução e prevenção da dor.
A dor reside no limite, remete a pensar sobre a parte que dói, a falta, incompletude e finitude do ser humano. Lidar com a incapacidade e limitação não é fácil, mas para cada um o sentir tem sua magnitude. Há que se sentir e sofrer, emergir e pensar: Por que dói? Será que fui imprudente? Tem remédio? Já senti isso antes? A capacidade de tolerar as dores nos promove mudanças, amadurecimento, pensar em crescimento rumo a independência, quando um dia tanto doeu o primeiro dia de aula, sozinho, sem o amparo materno, mas foi necessário viver esse experiência. Em todas as fases da vida há dores, mas esta que nos impulsiona a crescer.


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