Sobre a gravidez na adolescência
Comum associar a gravidez na adolescência à pobreza, falta de informações, desestrutura familiar, entre outros tipos de precariedades. Tantas premissas seriam de fato verdade?
Gravidez na adolescência seria a gestação antes dos 20 anos de idade, algo que hoje choca, mas que nos tempos da minha avó era tão comum, hoje cada vez as mulheres engravidam mais tarde e controlam a natalidade, por isso a gravidez precoce nos choca ainda mais.
São tempos em que a opção por não ter filhos tornou-se uma realidade. Além disso, cada dia mais comum mulheres que fazem uso de anticoncepcionais, principalmente pilula, seja com o intuito de não engravidar, como também outros benefícios como controle de acne, controle do ciclo menstrual, entre muitas formas de controle que a medicina proporcionou ao longo dos anos.
Na contra mão de tudo isso se situa a gravidez, não planejada, na adolescência. Por um lado, a adolescência é vista como merecedora de cuidados e atenção por serem os jovens considerados mais vulneráveis aos fatores de risco presentes no meio social, talvez pelo excesso de curiosidade; porém do outro é percebido como um risco para a sociedade por assumir comportamentos "desviantes". Há então uma tentativa de instituir mecanismos de controle sobre a sexualidade do adolescente, vista como impulsiva e difícil de governar e disciplinar, como as aulas de educação sexual.
Contudo será que o que falta mesmo é informação, ou há um desejo por parte dessas jovens em ser mãe?
Se pode perceber que jovens de camadas econômicas menos favorecidas não consideram uma eventual gravidez como desastre, o que não as leva a tentar evitá-la, diferente das mais favorecidas. Talvez isso possa remeter a conquista de um lugar social de reconhecimento e valorização, como uma vez ouvi em uma escola pública de Campinas, uma jovem de 13 anos sendo chamada pelos colegas e familiares de "mãezinha". Apesar dessa menina não ser a única mãe da escola, o que certamente é mais raro em escolas de nível social superior.
Mas quem será que era essa menina antes de ser "mãezinha"? Me perguntei. Percebi o quanto aquela menina era valorizada na escola, por continuar estudando, ao mesmo tempo pelos pais por se mostrar preocupada com a filha. Sobre essa jovem ela ainda se casou, com um rapaz, pai da criança, cerca de seis anos mais velho, que era quem a levava e buscava na escola, talvez assumindo cuidados sobre ela que os pais não puderam. Também refleti se não seria uma tentativa de reparar a vida dela enquanto filha, porém não tive tanto acesso a informações sobre a jovem moça, só lembro dela me dizer o quanto idealizava ser mãe e o quanto a filha lhe dava trabalho, chegando a dizer que se pudesse tiraria o útero para não ter mais filhos.
Certamente a mocinha achou que ser mãe era semelhante a brincar de bonecas, o que ela fazia até pouco tempo, quando engravidou em uma de suas primeiras relações sexuais. Desconhecia o próprio corpo e sexualidade, deixando a responsabilidade para o namorado mais velho, contudo apesar da maioridade a imaturidade sobre prevenção também era vivida por ele.
Para essa moça ser mãe foi "uma benção", contudo reclamava das vezes que faltava na escola e das tarefas que tinha que realizar na casa que morava com o marido. As colegas eram bastante pacientes em trabalhos, pois a a menina nunca dava conta de ajudar.
O nome da bebê, na época com sete meses era em inglês e duplo, me remetendo a algum nome de amigas da boneca Barbie. Pedi para ver fotos da bebê e a menina começou a me dizer que a filha dela era estranha, que não falava, apenas fazia alguns resmungos estranhos, na hora me assustei um pouco e tentei explicar sobre desenvolvimento do bebê, sem muito sucesso. Ela me disse que havia levado a filha a um hospital público, pois a menina estava tendo contato com o seu corpo e partes intimas, porém a pediatra falou que isso era normal e ela, não compreendendo a médica, ficou muito brava, sentindo como descaso, dizendo que era algum distúrbio.
Essa moça a quem vou chamar de M. demonstra o que seria uma maternidade precária, assim a gravidez talvez tenha sido para ela e tantas outras mães adolescentes uma via de acesso para a feminilidade. Diferentemente, classes sociais mais altas pressionam por notas e estudo, enquanto a família dessa moça entre outras mais populares pressionam para o trabalho, não enxergam os estudos como importantes e temem o envolvimento dos filhos com o tráfico.
Seguindo uma lógica psicanalítica, nas classes sociais mais altas a faculdade e o trabalho atuam
como objetos reparadores narcísicos, ou seja, eles
assumem o valor de falo, e o desejo de ter um filho
pode, assim, ser adiado para a vida adulta.
O desejo de ter um filho,
isto é, o desejo universal do falo, para todas as mulheres, representa a
possibilidade de restauração do seu próprio
narcisismo infantil abandonado. Por isso, pressupõe-se para
essas jovens como M., por terem uma precária situação
econômica e desestrutura familiar, o falo aparece como
o objeto privilegiado capaz de possibilitar essa
reparação narcísica. M. fala da filha como "tudo", preenchendo um vazio de desamparo, solidão e tendo essa filha de fato como uma boneca, algo que talvez tenha lhe faltado, assim como muitos brinquedos, afetos e escuta. Os pais de M. incentivaram a união com o seu namorado, talvez pensando em um quarto vago, menos despesas e questões mais práticas, também naturalizados a situação, sem um grande choque de uma gravidez aos 13, certamente porque casos assim na família e comunidade são normais.
A jovem transfere para o filho essa
demanda de amor materno, vivida anteriormente, assim, tentam reparar a própria questão por esse bebê, como M. com a filha do mesmo sexo, mas nome em inglês. A mãe da adolescente, sempre por perto, remete a uma observação coruja, sabendo que a filha talvez não dê conta do cuidado.
A jovem adolescente, filha e mãe parece ter tantos papéis sobrepostos, além do de esposa, ficando esquecida a maturação sexual, com treze ainda tão precária e prejudicada. A filha pode ser para ela, e também em muitos casos, como um presente da
adolescente para a sua própria mãe.
Um desafio para nós profissionais de saúde talvez seja não traçar um quadro mais trágico
e pessimista do que ele é na realidade, afinal, meu olhar enquanto jovem adulta, branca, com ensino universitário é trágico, mas o de M., talvez filha de outra M. é de alegria, apesar das dificuldades.
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