Sobre a relação com o corpo
A relação do corpo com a psique pode ser notada desde que Freud trabalhou com as histéricas, mulheres que eram tidas como loucas, mas que ouvidas atentamente, mostravam que o corpo era palco da insatisfação com a repressão.
Hoje, não há tanta repressão sexual, mas o comer tem adquirido esse status, o tal creme e castigo. Cada corpo comunica uma série de coisas, desde corpos de moradores de rua que passam certa visão de falta de limpeza, nos remetendo ao uso de drogas e doenças; aos corpos a serem disciplinados na escola; corpos de modelos fashion esquálidos e objetificados, entre tantos outros corpos sociais, consumistas, biológicos e tantos outros significados que podem ser dados a palavra "corpo".
O corpo é protagonista em temos de hiperindividualismo contemporâneo, assim nessa estruturação individualista das nossas sociedades e na nova relação com a própria identidade, o corpo então assume um novo papel enquanto instrumento de relação com o mundo. Não raro escutamos que com o corpo adequado e a beleza padrão podemos chegar onde desejamos, uma gordofobia total, além da fobia de tudo o que é diferente, como cabelos, cor da pele, entre tantas características.As mídias sociais, como Instagram, favorecem essa lógica do corpo como espetáculo, como também flexível, adpatável e tão maleável como massa de modelar. Nessas mídias são propagadas mensagens como "tudo depende de você", inúmeras fotos de "antes e depois", cirurgias plásticas e procedimentos estéticos a preços acessíveis, além das famosas digital influencers as quais dão uma série de dicas, em maioria nada sadias, para ter o corpo dos sonhos.
Quem segue tais blogueiras se depara com corpos belos, barrigas negativas e vidas insuportavelmente felizes, recheada de viagens, academia e sorrisos. O problema é como tais mensagens entram na mente de todos nós, e pior ainda daqueles que já sofrem com um transtorno alimentar. Só de olhar você pensa em quantas coisas deveria estar fazendo e não está, ou quantas queria, mas não tem condições e como a vida delas é perfeita. Talvez por isso, pessoas como Miriam Bottan, Diana Garbin e outras que vão contra essa corrente estejam começando a se destacar, mas é uma luta. Eu mesma com meu instagram @psicanalisetododia recebo uma série de mensagens, com criticas sobre propagar a forma como as pessoas poderiam ser mais gentis com o corpo delas. Afinal, o mundo está engordando, ou seja, temos dietas, medicações e tantos estudos sobre saúde, mas as pessoas não conseguem seguir isso e quando comem, fazem com tanta culpa. Como o proibido é sempre mais gostoso, assim como a vida sexual anteriormente era, tento passar a mensagem de que a comida não precisa ser proibida, a relação com ela é que precisa ser mais leve.
Certo dia li numa revista aqui da minha cidade, Campinas, um anúncio de um cirurgião plástico falando sobre "a busca da selfie perfeita" e falando sobre como poderiam ser feitas modificações para atingir essa selfie. Pensei que são corpos para a foto, para a exibição da imagem e como as imagens, hoje tão manipuladas, parecem tão melhores que a vida real. O corpo virtual da imagem não é o corpo, mas algo melhor do que ele, assim é parte dele, num melhor angulo, clique e cheio de efeitos. Há uma vulgarização do photoshop, Facetune, entre tantos outros aplicativos que permitem moldar o corpo real, tornando-o mais próximo do ideal.
Ora, a distância dos corpos reais aos ideais que anteriormente só eram de modelos, pode ser atenuada pelas redes sociais e qualquer um pode se inscrever nesse mundo de influencer, basta uma vigilância e ao auto cuidado, dietas body building ou qualquer coisa que fale sobre emagrecimento certamente renderá muitos seguidores.
Por trás dos discursos sobre saúde podemos pensar que as pessoas já não se satisfazem com desempenhos corporais rotineiros, mas buscam por excelência, porém, tais "efeitos especiais" iludem, assim pessoas buscam corpos irreais, postam fotos irreais e tudo vai virando uma bola de neve de muito mal-estar. Foucault (1971) fala em corpos dóceis, ou seja, moldados e disciplinados por inúmeras regras.
David Le Breton (1999) fala de um corpo-rascunho, assim um corpo a ser lapidado e constantemente melhorado, podendo sempre ser manipulado. Com isso, ficam vulneravéis aos olhares, procedimentos estéticos e plásticas, que são riscos, mas vale tudo pela beleza e para "chegar lá".
Uma questão comum as blogueiras fitness ou aos pacientes que sofrem com transtornos alimentares é a aversão a gordura, assim como à flacidez, à celulite e tudo o que lhes remeta a vestígios de gordura, descuido ou falta de disciplina. Quem vê celulite na Gisele Bunchen se espanta, mas talvez não faça grandes reflexões sobre isso, afinal ela tem, mas é magra, enquanto se Anitta tiver celulite e se questiona até o potencial dela para ter tanto sucesso. Preta Gil é uma pessoa que sempre posta fotos na praia e é alvo de criticas, como se o corpo magro valesse mais do que o trabalho, assim se questiona o talento de quem não é magérrimo e está na mídia. Referências:
FOUCAULT, M. L'ordre du discours. Paris: Gallimard, 1971
LE BRETON, D. L'adieu au corps. Paris: Métailié, 1999.
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